Escutando o podcast dos queridos José Salibi Neto e Sandro Magaldi (este episódio especificamente), pude refletir sobre o cenário atual das empresas. Observações feitas ao refletir sobre o modelo de negócio da maioria das empresas, ratificadas em conversas com pares, matérias, podcasts de negócios e alguns papers, mostram a necessidade de inovação para a longevidade de qualquer negócio. Isso é cada vez mais verdade em um mercado marcado por rápidas mudanças e incertezas, onde o pensamento estratégico se torna uma competência essencial para o sucesso de qualquer empresa. O desenvolvimento de estratégias eficazes vai além de simplesmente controlar a cadeia de valor e aumentar o seu poder de barganha sobre seus clientes; envolve criar valor para o cliente e inovar continuamente, dentro do conceito de um jogo infinito onde a empresa busca constantemente aprimoramento e novas formas de inovar na jornada do cliente. Resolvi escrever este artigo para explorar a importância do pensamento estratégico, os desafios da inovação na prática, a concorrência em um mundo VUCA e a necessidade de capacitação de executivos.
A Inversão da Lógica: Controle de Cadeia de Valor vs. Criação de Valor ao Cliente
Tradicionalmente, o foco das empresas estava no controle rigoroso da cadeia de valor, basicamente buscando eficiência e redução de custos. Não era necessário se preocupar com o surgimento de uma grande concorrência, seja porque a barreira de entrada era enorme, ou porque uma potencial aquisição poderia eliminar o concorrente. No entanto, a dinâmica do mercado mudou, e a criação de valor para o cliente se tornou o novo imperativo. As empresas devem se concentrar em entender profundamente as necessidades e desejos dos clientes, conforme amplamente discutido pelos gurus que me inspiraram a escrever este artigo, destacando o conceito de “jobs to be done”. Desenvolver produtos e serviços que realmente atendam a essas demandas é crucial.
Três grandes estratégias de inovação:
- Design Thinking: Utilizar métodos de design thinking para desenvolver soluções centradas no usuário, promovendo a empatia e a criatividade na resolução de problemas. Um exemplo notável é o Uber Eats. Lançado em 2016, o Uber Eats é um exemplo de design thinking dentro da gigante da mobilidade. Para entender o mercado de delivery que estavam prestes a entrar, designers da Uber exploraram ambientes onde os consumidores vivem, trabalham e comem em cidades do mundo inteiro. A equipe também realizou entrevistas com donos de restaurantes, clientes e entregadores para entender a cultura alimentar de cada região e verificar como as pessoas usam os recursos do aplicativo de mobilidade no dia a dia.
- Cocriação: Envolver os clientes no processo de desenvolvimento de produtos, permitindo que suas perspectivas e feedbacks influenciem diretamente as inovações.
- Iteração Contínua: Adotar uma abordagem ágil, iterando rapidamente com base no feedback do cliente para ajustar e melhorar constantemente os produtos e serviços.
A Dificuldade da Inovação na Prática sem Perder a Execução
Embora a inovação seja vital, é comum que as empresas enfrentem dificuldades para implementá-la na prática sem comprometer a execução das operações diárias. A inovação exige uma mentalidade aberta a riscos e experimentação, o que está diretamente ligado à cultura empresarial. Isso pode parecer conflitante com a necessidade de manter a eficiência operacional, que é essencial para garantir lucro. Pensando nisso, acredito que os dois principais desafios para inovar sem comprometer a execução diária são:
- Cultura de Inovação: Fomentar uma cultura organizacional que valorize a inovação, incentivando a experimentação e tolerando falhas como parte do processo de aprendizado. Cito novamente o conceito amplamente difundido pelos queridos Salibi e Sandro que é o conceito de “motor 1 e motor 2”, onde o motor 1 garante a execução e o atingimento de itens essenciais como por exemplo o lucro, enquanto o motor 2 promove a inovação que, no limite, romperá o status quo.
- Alocação de Recursos: Assegurar que haja recursos dedicados à inovação, incluindo tempo, orçamento e talentos, sem comprometer a operação principal. Este é um grande desafio, pois em um cenário onde o BAU (business as usual) vai bem, pensar em inovar é mais fácil. No entanto, em um ambiente onde o BAU está comprometido, buscar a inovação exigirá muita maturidade e coragem de toda a empresa.
Concorrência Não Óbvia em um Mundo VUCA
Vivemos em um mundo VUCA (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo), onde a concorrência pode surgir de lugares inesperados. Se uma empresa não inovar, uma startup pode entrar em seu mercado ou uma concorrência não óbvia pode surgir, algo cada vez mais latente com a construção de grandes ecossistemas. Cada vez mais empresas de diferentes setores podem lançar produtos e serviços que competem diretamente com os seus, tornando o ambiente de negócios ainda mais desafiador.
Estratégias para enfrentar a concorrência não óbvia:
- Monitoramento de Mercado: Implementar sistemas de inteligência competitiva para monitorar continuamente o mercado e identificar novas tendências e potenciais competidores, não para combatê-los, mas para aprender com eles.
- Diversificação: Diversificar o portfólio de produtos e serviços para reduzir a dependência de um único mercado ou linha de produtos. Dentro dessa estratégia, o foco deve ser inovar com o objetivo de encontrar o novo negócio que matará o negócio atual.
- Parcerias Estratégicas: Formar parcerias estratégicas com outras empresas, incluindo startups e empresas de tecnologia, para expandir capacidades, acessar novos mercados e acelerar a jornada de inovação.
A Necessidade de Capacitação de Executivos
Para que qualquer empresa navegue com sucesso neste ambiente desafiador, é crucial que seus líderes sejam capacitados para lidar com complexidade e mudança. A formação contínua de executivos é fundamental para desenvolver habilidades estratégicas, de liderança e de inovação.
Formas de capacitação de executivos:
- Educação Continuada: Incentivar os executivos a participarem de programas de educação continuada, como MBAs, cursos de especialização e workshops de liderança.
- Mentoria e Coaching: Implementar programas de mentoria e coaching para apoiar o desenvolvimento pessoal e profissional dos líderes.
- Experiência Prática: Proporcionar oportunidades para que os executivos ganhem experiência prática em diferentes áreas da empresa e em contextos de inovação.
- Leitura de Bons Livros: Livros são uma forma democrática e eficaz de buscar conteúdo sobre qualquer tema, incluindo estratégia e inovação.
Conclusão
Acredito que o pensamento estratégico é a espinha dorsal do sucesso empresarial em um mundo em constante mudança. A inversão da lógica do controle de cadeia de valor para a criação de valor ao cliente, a implementação prática da inovação, a adaptação à concorrência não óbvia em um mundo VUCA e a capacitação contínua de executivos são componentes essenciais para uma estratégia robusta. Ao focar nesses aspectos, as empresas podem não apenas sobreviver, mas prosperar em um ambiente de negócios complexo e imprevisível.